“Numa época nem tão remota, aqui mesmo, numa capital europeia, as crianças também eram enterradas no mesmo setor do campo-santo, como se fossem todas irmãzinhas ou tivessem sido levadas ao mesmo tempo por uma peste e passassem a habitar uma espécie de minicidade fantasma dentro da grande cidade dos mortos, para que, se acordassem no meio da noite, pudessem brincar juntas. Sempre que visito um cemitério, tento dar uma passada pelo espaço kids, vou lendo entre sobressaltos e suspiros as despedidas que as famílias deixaram nas lápides e fico imaginando sua vida frágil e sua morte, muitas vezes causada por doenças banais. Penso, diante desse sepulcro infantil não encontrado, se o terror que a morte das crianças nos provoca hoje não virá dessa antiga fragilidade, se não teremos esquecido o costume de sacrificá-las, a normalidade de perdê-las. Nunca vi um túmulo de uma criança contemporânea. Quem no seu perfeito juízo levaria o cadáver do filho para um cemitério? Só se for louco. Quem inventaria de enterrar uma criança, viva ou morta?


In: Gabriela Wiener – Huaco retrato, Exploração, p. 13 – Trad. Sergio Molina, Ed. Todavia, 2023

Imagem: La promesa de una madre, La Franqueira, Espanha, 1981, Cristina García Rodero


Gabriela Wiener 🇵🇪 (1975–) é uma escritora peruana nascida em Lima, cronista, poeta e jornalista, que vive na Espanha desde 2003. Faz parte do grupo de novos cronistas latino-americanos. Filha do destacado analista político e jornalista peruano Raúl Wiener e da trabalhadora social Elsi Bravo.

 


Cristina García Rodero 🇪🇸 (1949–) nasceu em Puertollano, Cidade Real e é referência na história da fotografia espanhola contemporânea, é membro da agência Magnum e uma das fotógrafas mais destacadas do cenário internacional. Ela também é proprietária de uma obra formidável focada nas tradições ancestrais e nos contrastes entre os humanos em diferentes partes do mundo. Recebeu numerosos prémios, incluindo o Prémio Nacional de Fotografia de Espanha em 1996, pelo seu trabalho criativo através do qual afirma ter-se descoberto. Por trás do seu olhar – quase antropológico – está uma mulher trabalhadora.