Minha São Paulo natal é uma das capitais mundiais da gastronomia. Uma vibrante megalópole onde se pode encontrar todo tipo de comida: caipira, mineira, nordestina, italiana, portuguesa, árabe, japonesa, libanesa, marroquina, argentina, chinesa, alemã, indiana… Com tanta variedade, será que sobra espaço para a culinária tipicamente paulistana? Claro, pode crer. São Paulo tem vários pratos típicos, uns mais tradicionais, outros nem tanto, mas sem dúvida uma gastronomia própria e singular. Comida paulistana de verdade, feita na cidade mais cinzenta do Brasil. E cheia de influências. O sabor mestiço remonta à formação pluriracial de Sampa e se percebe em quase todas as receitas. Do café da manhã ao PF noturno, das barracas de rua aos restaurantes renomados, há sempre uma delícia a caminho ou na volta do rolê paulistano, meu. A seguir, 30 comidas típicas de São Paulo, divididas em 10 categorias para facilitar a digestão deste post calórico, regional e absolutamente passional. Se planejar direitinho, dá para experimentar tudo.

30 comidas típicas de São Paulo divididas em 10 categorias:

  1. Na padoca
  2. Comercial com tubaína
  3. Era uma vez um lanche inocente…
  4. Jantarzin mais tcham
  5. Sábado na terra da garoa
  6. Domingueira, cazzo!
  7. Jeito de Festa
  8. Dia do pagamento $$$
  9. Tá na rua? Pega nada.
  10. Se joga na noite e tomba na madruga

NA PADOCA

1. Pão na Chapa

Tudo começa com o pão na chapa e o pingado, logo cedo. O café da manhã express de todas as padocas, direto no balcão. É verdade que não se encontra pão com saída requeijão caprichadinho em qualquer padaria de esquina. Para saborear o verdadeiro, com casquinha crocante e recheio cremoso, vá na Padaria Santa Efigênia, que ainda passa o café no coador, direto na mesa do cliente.


2. Coxa creme

A iguaria de origem portuguesa está entre as mais populares da estrada paulista. O quitute frito é uma coxa de frango, com seu devido osso, mas super cremosa e empanada. O preparo é mantido em segredo, mas todo posto tenta reproduzir a original. Difícil. Onde: Padaria Santa Tereza a mais antiga do Brasil, desde 1872 na praça João Mendes, vizinha ao sebo do Messias, atrás da catedral da Sé. Ali, a coxa creme é farta e legítima.


3. Sonho de Padaria

Toda padaria tem seu fabrico de sonhos fofinhos. Nas manhãs preguiçosas de fim de semana ou nas enfadonhas tardes, um sonho fresco de padaria pode te levar para o paraíso. Cremosão, bem farto e ainda polvilhado com açúcar de confeiteiro. Cada mordida é um deleite.

COMERCIAL COM TUBAÍNA

4. Picadinho

Cubinhos de filé mignon, cenoura e batata no molho. Servido com arroz branco, farofa e alguma fritura. Sempre uma excelente opção para aqueles dias que tudo o queremos é comida caseira e barriguinha forrada. Normalmente, é servido às segundas-feiras, mas há picos que fazem sempre. Onde: Lá da Venda


5. Virado à Paulista

Tutu de feijão, bisteca, torresmo, linguiça, arroz, couve, ovo e banana. Prato tradicional paulista desde 1920, reconhecido como patrimônio cultural imaterial do estado e servido às segundas-feiras. Tem inspiração na comida rural do tempo das monções e bandeiras. Simples, feijão engrossado com farinha e toucinho, suficiente para dar força durante todo o dia. Onde: logo no centrão ou próximo à Av. Paulista, no Sujinho, onde é servido diariamente.


6. Bife à Parmigiana

Apesar do nome italianado, esta é uma criação brasileira — mas com influência ítala, claro. Uma das opções mais famosas dos bares e restaurantes da capital. Com opções de peito de frango, filé mignon, peixe ou berinjela, o prato chega à mesa com uma boa porção de mozzarella regada com molho de tomate, além de acompanhar arroz e fritas.

ERA UMA VEZ UM LANCHE INOCENTE…

7. Pastel de Feira

Comer pastel na feira poderia fazer parte do hino da cidade de São Paulo. Toda feira tem a sua barraquinha de pastel, muitas vezes comandada por um japa. Os recheios são tão variados quanto as promoções. Tradicionais de queijo ou carne e uns mais diferentes, com cogumelos. Peça ainda um caldo de cana gelado com limão. Onde: Pastel da Maria, que desde 2009 ostenta o título de melhor pastel de São Paulo num concurso da prefeitura. Está em seis feiras, incluindo a tradicional do Pacaembu.


8. Dogão Prensado

Tão polêmica quanto a heresia mania de por ketchup na pizza, a moda paulistana do purê de batata no cachorro-quente deixa os puristas do pão e salsicha de cabelos em pé. Mas a gastronomia paulistana não conhece limites, e criou combinações que vão do dog podrão ao cãozinho gourmet, com direito a prensa gratinada em algumas versões mais raras e boêmias. Onde: Black Dog, que ostenta 16 ingredientes e várias filiais pela cidade ou no claustrofóbico Pedrinho, no centro, para um almoço rápido, comercialzão, estilo motoboy. E se procura algo mais elaborado, The Dog Haus, no Itaim Bibi. Onde: Jhony’s, no fervilhante bairro de Santa Cecília.


9. Bauru

O famoso sanduíche no pão francês com  rosbife, queijo derretido e tomate foi criado no Ponto Chic, no Largo do Paysandu, quando um cliente conhecido como Bauru, chegou com muita fome no local e pediu para o sanduicheiro preparar a iguaria. Um cliente próximo viu, experimentou, gostou, outro cliente também experimentou… Enfim, o resto é história. A receita tem variações com presunto e toque especial de picles, a gosto pessoal.

JANTARZIN MAIS TCHAM

10. Pizza

Pizzaria é de lei em São Paulo. A procura é tão grande que todo bairro tem pelo menos umas três diferentes. As massas têm fermentação lenta, são assadas no forno a lenha e as bordas mais altas, recheio Catupiry. Peça pelo menos uma fatia de portuguesa, com certeza; reserve espaço para a toscana com calabresa ou vá na de atum para dar água na boca! Onde: na classuda Pizzaria Bráz que tem várias filiais; na Castelões, por ser a mais antiga desde 1924; ou ainda na Speranza, sessentona com casas em Moema e no Bixiga.


11. Polpettone

O polpettone é um bolo de carne empanado e recheado de mussarela. Por cima, traz ainda muito molho de tomate e parmesão ralado. Saboreá-lo no inverno, junto com uma taça de vinho é super confortante. Especialmente antes de pegar um cineminha despretensioso. Onde: Jardim de Napoli, no Higienópolis. Com sete décadas de tradição, a cantina continua a ser um bom destino para quem quer está com frio e  muita fome.


12. Esfihas

Abertas, fechadas, com massa tradicional ou folhadas, estas esfihas são assadas no forno e levam limão para acompanhar. Tudo é preparado na hora, desde a abertura da massa das esfihas, que são levadas ao antigo forno e servidas imediatamente, até a moagem da carne para o delicioso quibe crú, kaftas, quibes recheados com snoubar. Onde: Casa Garabed, estilo armênio escondido entre residências de Santana desde 1951 ou no arabinho Raful, que fica na Bela Vista e no centro.

SÁBADO na TERRA da GAROA

13. Feijoada

A Feijoada mais tradicional de São Paulo, servida todos os dias e não apenas às quartas e sábados, como é tradição em muitos bares. Em qualquer uma das modalidades, escolhe-se entre a feijoada magra e a tradicional, que traz itens mais gorditos como rabo, orelha e pé, um pedaço de carne-seca ou costelinha. Para acompanhar, caldo de feijão, torresmo, mandioca, arroz, couve, banana e bisteca. Onde: Bolinha, com casas nos extremos, Itaim ou  Quarta Parada.


14. Tempurá na Liberdade

Toda megalópole que se preze tem seu bairro oriental. Em São Paulo, este bairro tem o poético nome de Liberdade. Nas feirinhas de rua há artesanato e guloseimas. Aposte no tempurá, receita nipo-portuguesa, leva camarões fritos em massa de farinha panko e ovos. A sobremesa pode ser picolé de melão, o Melona, ou uma das várias frutas caramelizadas ao bom estilo oriental. Se o passeio for à noite, experimente petiscos chineses no karaokê.


15. Beirute

Origem árabe, é verdade. Mas é inegável que suas variações paulistanas tornaram a receita famosa. A forma clássica, que compõe o cardápio da lanchonete desde 1956, é uma versão do tradicional bauru, mas preparada no pão sírio e com um diferencial — a ida ao forno. As opções foram crescendo de acordo com as sugestões da clientela, a ponto de o menu trazer hoje mais de 15 opções para recheio, incluindo uma vegetariana e uma com carpaccio. Onde: Frevo, na estilosérrima Oscar Freire ou na Augusta mesmo.

DOMINGUEIRA, CAZZO!

16. Cuzcuz Paulista

Tipicamente caipira, o cuzcuz paulista vem do rango dos tropeiros que carregavam farinha de milho, ovo cozido, banha de porco e torresmo, tudo junto numa espécie de lenço, que amarravam e levavam a cavalo. Desse farnel, o cuscuz foi à mesa das fazendas já com outros ingredientes e feito na cuscuzeira. Ali adquiriu mais sustância com frango ou peixe, e mais pra frente veio o requinte do camarão. Depois passou a ser feito em fôrma de bolo furada e compacta. Onde: Mercearia do Conde.


17. Fogazza da Achiropita

A tradicional festa do bairro do Bixiga acontece em setembro. Além das barracas de rua, com comida italiana, especialmente espaguete, a cantina da paróquia promove um evento grandioso com música ao vivo e muito agito. A  fogazza é a estrela da festa. Frita na hora, derretendo o abundante recheio de mozzarella. Vale cada minuto na fila e cada empurrão na tumultuada celebração.


18. Cannoli

Desde 1935 o cannoli virou referência na produção de doces típicos trazidos pelos imigrantes italianos. São canudos de massa ultra crocante e sequinha, recheados com cremes de vários sabores. O mais tradicional é o de creme, que vem generoso, mas é suave. Para quem é formiga, a dica é a versão com doce de leite. Lembra e supera os inesquecíveis churros de rua. Onde: Di Cunto, reduto italiano na Mooca.

JEITO DE FESTA

19. Brigadeiro

O brigadeiro é uma paixão nacional, mas foi em São Paulo que este docinho super popular ganhou um troféu. Isso porque a quantidade de brigaderias da cidade é surpreendente: onde mais você encontraria lojas exclusivas? Há variedades tentadoras: brigadeiro clássico, branco, de avelã, de chocolate belga, de leite ninho, trufado…


20. Coxinha de Frango

Sucesso absoluto em festas e comemorações! O preparo diário, sem congelar a massa, é um dos segredos para alcançar o ponto de coxinha de vó. Dica para seguir à risca a tradição e manter o sabor. Para molhar a boca, a pedida é a caipirinha de três limões. Onde: Veloso, na Vila Mariana, mas chegue cedo, a casa costuma lotar.


21. Dadinhos de Tapioca

A origem da tapioca é atribuída ao litoral pernambucano do século 16 — mas foi em São Paulo que a goma de mandioca se transformou num petisco, com adição de leite e queijo de coalho para dar a forma cúbica depois do corte. Os dadinhos chegam à mesa crocantes por fora e macios por dentro, acompanhados de molho de pimenta agridoce. Se hoje não é difícil encontrar o quitute, é graças ao chef Rodrigo Oliveira, criador da receita. Onde: Mocotó, na Vila Medeiros.

DIA DO PAGAMENTO $$$

22. Churrascaria Tipo Rodízio

O esquema é muito simples: você paga uma fortuna e pode comer à vontade. São várias carnes realmente especiais desfilando pelas mesas. Churrasco de alta qualidade, sem fumaça de churrasqueira, sem farofada de churras. Antigamente, os garçons vestiam bombachas e os carrinhos de carnes tinham rodas de carro de boi. Circulavam ali muitas variedades: da picanha simples à temperada no alho, asinhas crocantes, sobrecoxas carnudas, moelas no espeto, lombinhos, costelas suínas, costelas bovinas no bafo, linguiças artesanais, salsichões, filé mignon, maminha, fraldinha, alcatra, contra-filé, cupim, entrecôte… Não tem como resistir aos cortes, sempre acompanhados de vinagrete, pão de alho, maionese, farofa de banana, mandioca ou polenta frita, outro petisco típico de São Paulo. Onde: no requintado Rodeio, nos Jardins e no Iguatemi.


23. Hambúrguer

O bam-bam-bam dos Estados Unidos também foi adotado pelos paulistanos. Não param de surgir hamburguerias na cidade. O grande destaque são os hambúrgueres artesanais, elaborados com diferentes tipos de carne e opções de preparo: mal passada, ao ponto e bem passada. Os molhos e acompanhamentos incrementam e aumentam o apetite. E além de oferecer lanches diferenciados, as hamburguerias investem em estilo, design e decoração, cerveja artesanal para aproximar ainda mais seus clientes, em sua maioria jovens. Onde: no generoso e premiado Z-Deli; em alguma filial do Bullguer, o primeiro smash burger do Brasil; no divinal St. Louis ou ainda no descolado Meats para um burger mais ousado.


24. Sanduíche de Mortadela

Tão falado que virou ponto turístico. Diz a lenda que o famoso sanduíche surgiu graças a um cliente que sempre reclamava que o seu vinha com pouca mortadela. Um dia, o dono da lanchonete se encheu e colocou o triplo de recheio. O resultado agradou não só o reclamão, como a clientela geral. Onde: Bar do Mané no Mercadão Municipal, onde é servido há mais de 80 anos. Para experimentar este exagero, peça uma cerveja bem gelada. Aproveite ainda e experimente frutas da mais alta qualidade (e do mais alto preço também!) nas barracas do Mercado.

TÁ NA RUA? PEGA NADA.

25. Churrasquinho Grego

Patrimônio da culinária podreira de São Paulo. A graça – e o desafio – é comer e não sentir as consequências no dia seguinte. Seja na saída do estádio ou nas ruas mais movimentadas do centro: o cheiro da gordura derretida, a velocidade com que é servido e o preço conquistam. As mais diversas tribos se reúnem ao redor das máquinas metálicas. Normalmente acompanha de um famoso ki-suco, um líquido aromatizado pra ajudar a descer o lanche perigoso.


26. Milho de Rua

A explicação desse amor deve vir do saudosismo daqueles finais de semana na baixada, não é possível. O mais incrível é que aqui dificilmente se come na espiga, somos práticos (até demais) e pedimos para colocar no pratinho de prááástiko, com direito a colher, guardanapo e manteiga. Nos julguem.


27. Pipoca com Sabores

E já que estamos no milho, vamos ajoelhar! Da pipoca tradicional, pobrinha, às opções metidas. Quem não lembra da velha e boa pipoca vermelha, cheia de groselha no carrinho no parque? E a pipoca murcha de chocolate? E a caramelada que gruda na boca? A com cheddar ou manteiga extra no cinema? E a salgadinha com bacon na saída do metrô? As gourmets com trufas ou lemon pepper? São muitas as possibilidades de encontrar pipocas inesquecíveis em São Paulo.

SE JOGA NA NOITE E TOMBA NA MADRUGA

28. Chope

Copo e temperatura apropriados, três dedos de colarinho e uma equipe treinada para tirar a bebida — faz parte da receita dos 50 mil chopes que saem a cada mês do balcão do bar e transformam o pedido em um clássico paulistano. Antes de abrir o cardápio, o público já chega pedindo. Desce um chope? Onde: Bar Brahma, onde a aura turística é composta ainda por mais de 70 anos de história, na esquina da Ipiranga com a São João, imortalizada por Caetano, além de boa programação musical e gastronomia de boteco.


29. Bolovo

Este petisco tem a cafonice dos ovos cozidos coloridos dos botecos dos anos 80. Mas foram totalmente repaginados para este novo século e agora montam o exército da fritura inconsequente: bolos de feijoada, de torresmo e de carne recheados com um ovão, tá bão? Onde: no Guarita, em Pinheiros; no maravilhoso Dalva e Dito; no Quincho, no Tiquim ou no Boca de Ouro.


30. Sanduíche de Pernil

Clássico da madrugada paulistana. Quando tudo acabou, você sempre pode rangar pernil requentado. O boteco conhecido como Bar do Estadão, no centro, fica aberto 24h e serve o boêmio e famoso sanduíche de pernil no pão francês. O recheio é deveras exagerado, mas o tempero leve compensa o excesso. Abre e fecha o apetite de qualquer madrugador.


Autoria

Julia Medrado, paulistana, atualmente vive em Portugal, é tradutora, publicista e mestre em Literatura e Crítica Literária. Graduada em Letras pela PUC-SP, é também especialista em Gestão de Projetos Digitais pelo SENAC. Presta serviços junto a redatores, revisores e tradutores; em 2010 criou a Tradstar e, desde então, se divide entre projetos, alguns literários e absolutamente pessoais, como este site que leva seu nome.